Entrevista com Isoyama Sensei

FN: O que o fez procurar o Aikido?

ISOYAMA: Em 1949, quando me matriculei, o Japão – recentemente derrotado na Guerra – estava muito conturbado. Minha família tinha uma pousada e eram freqüentes os clientes brigões, o que me fez pensar em aprender alguma arte marcial, pois, corríamos perigo. Entrei, então, na academia de Aikido que havia em Iwama.

FN: Como eram os métodos de ensino do Grão-Mestre naquela época?

ISOYAMA: O Grão-Mestre não servia de ukê para os alunos, mas ensinava todos os alunos, um por um. Por exemplo, repetia o shomen-uti dai-itikyô com todos os alunos e aprendemos observando essas repetições, pois, não havia explicações detalhadas. No início, não havia tatamis e treinamos em assoalho. Doer, doía sim (mas não doía por dentro).

FN: Como foi a primeira vez que ensinou aos norte-americanos?

ISOYAMA: De qualquer modo sofri muito porque eram todos bem mais altos que eu. Especialmente, o koshinague não funcionava. Foi daí que passei a entrar com o ombro ao invés de quadril e daí nasceu aquela técnica, que exibo em demonstração a de arremessar acima dos ombros. Havia, na época, um americano que conhecia boxe e luta livre e que atacava de todas as formas, de modo que as aulas pareciam um combate real. Um dia levei-os para a Academia de Iwama e, quando me viram ser arremessado tão facilmente pelo Grão-Mestre, não levaram a sério que o professor capaz de derrubá-los sempre nas aulas fosse tratado dessa forma por um velho tão miudinho. Pediram então, que os enfrentasse e ficaram atônitos ao serem instantaneamente dominados pelo Velho Mestre. Ainda hoje mantenho contato com esses americanos. É maravilhoso o laço duradouro que se cria através do Aikido.

FN: Qual é a sua postura como professor de Aikido?

ISOYAMA: Todo praticante de Aikido possui um objetivo e é natural que cada um tenha uma atitude própria nos treinos de acordo com as suas expectativas como a defesa pessoal, a estética, a saúde ou a soma de tudo isso. Porém, no Aikido prevalece o budô. Tanto a defesa pessoal como a estética devem ser de cunho marcial e, se afastarem do budô, acho que estará se distanciando do espírito do Aikido. Portanto, o professor não deve esquecer-se de que é budoka (praticante de arte marcial). Acho que o professor de Aikido deve assimilar o Aikido como arte marcial para depois ensinar os alunos de diversas maneiras, visando os diferentes objetivos. Não é correto passar ao aluno a idéia limitada de que Aikido é apenas aquilo que o professor sabe fazer. O modo de pensar do Kaisso mudou, naturalmente, no decorrer dos anos, da época em que começou a ensinar até a sua velhice e, evidentemente, os seus movimentos, também mudaram. Não há ninguém que tivesse sido aluno do Grão-Mestre, do início ao fim. O Aikido dos alunos do Grão-Mestre difere conforme a época em que estudaram, o do tempo em que o desejo mais forte dele era de divulgar o Aikido difere de quando, superada a primeira fase, dava ênfase à harmonia e, por último, quando o ki era o elemento mais importante. Não há bom nem ruim nestas diferenças. Outra coisa que interfere seria a idade do praticante. Os jovens podem praticar um Aikido forte adequado ao seu vigor e os mais velhos, um Aikido explorando mais o lá, embora sejam as mesmas técnicas. É por isso que o Aikido – que nasceu do mesmo Kaisso – apresenta-se em formas tão variadas. O professor deve compreender bem este aspecto para corresponder às mais diferentes expectativas dos alunos.

FN: O senhor acha que as técnicas de manejo de armas é importante no Aikido?

ISOYAMA: Acho muito importante. Imagino que para o Grão-Mestre o manejo de armas foi um componente importante para o Aikido como arte marcial. Sendo uma arte marcial, as técnicas de manejo de armas é ideal para adquirir os primordiais fundamentos como a noção de posicionamento diante do oponente, de kamae intransponível, o domínio do centro e assim por diante. Entretanto, se o manejo de armas for apenas técnicas para matar ou ferir, não passará de um simples meio de violência. É preciso entender bem para que serve o treino de manejo de armas e exercitar com seriedade como parte do aprendizado do aiki. O Grão-Mestre repreendia, dizendo que pessoas que nem sabem fazer o suburi estavam praticando uma coisa que parecia kumidati.

FN: Dizem que, na velhice, o Grão-Mestre mostrava uma face espiritualista, como, por exemplo, dizendo, ao repreender um aluno, que era Deus que o fazia e não ele. O que o senhor pensa sobre isso?

ISOYAMA: Ouço muito isso. Penso que ele queria dizer que não era pessoalmente o Ueshiba que repreendia o aluno por sentimentos particulares e, sim Deus, para educá-lo, para dar um sentido superior. Não acredito que ele podia ser possuído por um espírito superior. Talvez, algumas pessoas tinham-lhe atribuído tal poder. O que é admirável nele na questão religiosa é que, mesmo sendo um fervoroso seguidor da seita Omoto, nunca disse a nós alunos que nos convertêssemos à esta seita, tamanha era a sua grandeza. Consideram que o Grão-Mestre foi atraído pela Omoto em busca do verdadeiro espírito do budô, mas imagino que havia um motivo mais profundo. O Aikido como parte da cultura tradicional japonesa, é uma arte marcial que vale a pena ser transmitida para a posteridade. 0 valor do Aikido está na espiritualidade e, por isso, os treinos não devem ser apenas técnicos. É importante conduzir o treino, equilibrando os aspectos técnicos e espirituais.

FN: O senhor que participou, ativamente, na organização da Federação Internacional de Aikido, o que pensa quanto à importância desta entidade?

ISOYAMA: No Japão há muitos professores assim como instalações apropriadas, mas em países carentes de mestres e academias, há muita gente querendo praticar Aikido, também. Para que essas pessoas possam praticá-lo sem gastar muito dinheiro, é importante criar uma sólida organização internacional para dar suporte a essa gente. É necessário, ainda, tomar mais efetiva a organização como um local de atividades para a correta compreensão do Aikido. De nada adianta apenas aumentar a população de aikidocas, se o espírito desta arte for dissipando, deixando de ser aquilo que Kaisso idealizou. Por outro lado, com o crescimento do Aikido, surge o relacionamento com outras organizações esportivas. A mais importante delas é a “World Games”, da qual participam diversas modalidades, mas como o Aikido pela sua própria natureza não pode associar-se a ela diretamente, isso é feito por intermédio da Federação Internacional. Em intercâmbio somente no âmbito do Aikido bastaria a Sede do Japão, não necessitando de outros órgãos, mas ao considerarmos as relações mais amplas, é preciso mantermos uma representação internacional. Por estas razões, devemos consolidar a FIA não como uma entidade que restrinja as ações individuais e, sim, que as concilie.

FN: Estamos na era do Terceiro Doshu. O que o senhor tem a dizer sobre o regime de IEMOTO (raiz familiar)?

ISOYAMA: No Japão existe o chamado regime de iemoto para proteger o centro e para desenvolver corretamente o caminho (dó). O regime de iemoto é, geralmente, eterno. É o caso de sadô (a arte do chá) e de kabulci (um gênero de teatro japonês) que mantêm a ordem por meio do iemoto. No Aikido, que é arte marcial espiritual, também, é a mesma coisa. O sucessor do caminho da arte dever ter grande capacidade, ter pensamentos puros e inabaláveis, saber ensinar e ter sempre discernimento de quem está no topo. Se não for criado num ambiente que propicie esses atributos desde pequeno, não servirá para ser um doshu Acho que o regime de iemoto é ótimo para se criar um sucessor. Eu recebi os ensinamentos do Kaisso. É meu dever assegurar que o Terceiro Doshu cumpra a sua missão sem estorvos e com isso expressar a minha gratidão ao Kaisso. O Primeiro Doshu criou o Aikido. O Segundo, o Mestre Kisshomaru, divulgou-o ao mundo. De agora em diante, é tarefa do Terceiro manter unido o Aikido que agora se propaga sem parar, mesmo sem que se mova uma só palha.

FN: Parece ter havido mudança nas técnicas na Era do Mestre Kisshomaru. Por que?

ISOYAMA: Não podemos generalizar esta afirmação. Até mesmo o Grão-Mestre mudou de sua juventude para a velhice. O Mestre Kisshomaru, também, era vigoroso quando era jovem. Após ter adoecido é que passou a movimentar-se sem forçar as situações. Hoje, eu mesmo sou muito diferente de quando era moço. Os companheiros que treinaram comigo na mocidade dizem que me tomei bem carinhoso. Portanto, não se pode dizer isso ou aquilo porque mudou a Era e, na verdade, o Aikido ficou mais amplo. Nas demonstrações vemos Aikido de todo tipo. Isso se deve às formas de encará-lo, como arte marcial, corno meio de preservar a saúde corno recurso estético, como mero movimento físico e varia de acordo com essas premissas. Na minha academia, evidentemente, praticamos o Aikido conforme os meus pensamentos. Oriento, visando um Aikido que seja aplicável na vida cotidiana. Perde sentido treinar se não praticarmos o espírito de harmonia do Aikido.

FN: Para finalizar o que é Aikido para o senhor?

ISOYAMA: A melhor coisa que aconteceu fazendo Aikido é que, através dele, encontrei muitos amigos com quem convivo de peito aberto. É maravilhoso poder relacionar-me com pessoas sem me preocupar com a idade, com pessoas mais vividas ou mais jovens. Há tantas coisas que posso assimilar delas, já que cada um vive um mundo específico. Penso que isso seja, talvez, a coisa principal que me faz continuar no Aikido. O Grão-Mestre vivia cercado de grandes homens porque ele foi grande. Como sou, ainda, muito imaturo posso, aos poucos, crescer, relacionando-me com grande numero de pessoas. O mais importante é fazer com que cada vez mais pessoas compreendam as qualidades do Aikido e que elas possam viver mais felizes e isso é a gratidão ao Grão-Mestre e ao Mestre Kisshomaru.

“Um dia levei soldados americanos para a Academia de Iwama e, quando me viram ser arremessado tão facilmente pelo Grão-Mestre, não levaram a sério que o professor capaz de derrubá-los sempre nas aulas fosse tratado dessa forma por um velho tão miudinho.”

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