Tese de Nidan – Joacir Marques

Manaus, 17 de Setembro de 2011



Meu nome é Joacir Marques de Oliveira Júnior e iniciei a prática do Aikido em dezembro de 1999 em Fortaleza, capital do Ceará. A primeira vez que escutei sobre Aikido foi bem antes, ainda em Manaus. Umamigo e vizinho brigão, que adorava lutas, comentava empolgado sobre Steven Seagal e que ele praticava uma arte marcial chamada Aikido e como ele derrotava todo mundo através dessa “luta”. Fiquei curioso e comecei a assistir a alguns filmes do ator. Golpes rápidos, torções, projeções. O cara era bom mesmo e eu muito magrinho era um dos mais fracos da minha rua e precisava dar um jeito nisso. O bairro que morava em Manaus era agitado, a garotada tinha por diversão brigar. Eu detestava a idéia, mas se queria estar na rua, a possibilidade de se envolver em uma briga era bem razoável. Geralmente era uma medição de forças no bairro, onde você era desafiado e ou se baixava a cabeça, ou enfrentava o seu desafiante. As brigas começavam muitas vezes com provocações simples do tipo: “Você tem medo de mim?” e eu orgulhoso dizia “não, não tenho (porém bastante apreensivo)”. A resposta era “então vamos brigar e ver quem é melhor”.

Eu devia ter nessa época de10 a13 anos e tinha muito medo dessas situações e precisava me preparar para aquilo. Aikido seria uma ótima opção, eu pensava. Na época saía uma publicação da revista KIAI e li uma matéria do Shihan Wagner Bull falando sobre traumas no Aikido. Em uma das fotos Sensei Wagner estava segurando uma pessoa com muita cara de dor enquanto o Shihan exibia uma cara tranqüila de que estava fazendo pouco esforço para dominar o seu UKE. Era um sankyo. Poderosíssimo. Fiquei fascinado com aquilo, com a possibilidade de ser forte. Queria muito praticar aquela arte marcial poderosa e fui atrás no meu bairro mas não achei. Já tinha feito judô, mas achava insuficiente para o que precisava nas ruas. Meu pai então me levou em uma academia simples onde se praticava Kung Fu. Fiquei la um mês até que viajamos e férias e não voltei mais. Já com meus 17 anos, o Jiu Jitsu fervia em Manaus. Acabei praticando uns 2 meses mas achava tudo muito estranho e um clima pesado. A maioria dos praticantes ficava muito “inflado” e muitas vezes nem eram tão bons de briga assim, mas bastava praticar uns3 a6 meses que se sentiam poderosos e queriam se testar com os que não praticavam nada. Apesar de muito eficiente, não me empolgava. Fui então para o Tae Kwon Do. Pratiquei 6 meses e cheguei a ganhar um campeonato. Meu professor na época era um cara muito legal. Uma das regras era que se brigar na rua tava expulso. Era o tipo de regra que gostava, pois minha idéia sempre foi de estar preparado para uma luta, mas nunca precisar entraem uma. Dizem que para um país manter a paz, ele precisa estar preparado para a guerra.

Depois de um tempo entrei na faculdade de Tecnologia em Edificações em Manaus e trabalhava ajudando meu pai no comércio. Tinha esquecido um pouco sobre as artes marciais. Ainda voltei a fazer judô, porém com pouco compromisso. Minha irmã terminou a faculdade de odontologia e meu pai decidiu que iríamos morar no Ceará. Larguei a faculdade de que não gostava muito e comecei uma nova em Informáticaem Fortaleza. Depoisde alguns anos e alguns estágios, surgiu no trabalho o assunto artes marciais. Um colega comentou que gostaria de praticar Aikido e que perto de onde trabalhávamos existia um bom dojo. Toda a vontade que tinha ressurgiu naquele momento. Combinamos de irmos assistir uma aula. Eu sempre fui muito decidido e ansioso. Nunca gostei de adiar muito o que queria fazer e na espera do dia de irmos visitar o  dojo que nunca vinha, acabei indo sozinho assistir a minha primeira aula de Aikido. Fiquei encantado. Estavam treinando Shiho Nague. Eu queria muito treinar aquilo. Falei com o Sensei no final da aula e finalmente comecei a praticar Aikido. As aulas eram todos os dias e eu não faltava nenhuma. Por mim ia mais e mais vezes. Quando recomeçaram as minhas aulas na faculdade, muitas vezes saía mais cedo da aula para dar tempo de treinar. Eu amava Aikido. Era um sentimento difícil de explicar. Meu sensei na época era o Sensei Paulo Lins, um Sandan naqueles dias. Um dos colegas de treino era um ex praticante de Muay Thai e Jiu Jitsu que era categórico em afimar que Aikido era a mais eficiente das artes marciais. Sua certeza em falar isso vinha do fato de ele quando entrou no grupo de Aikido, tinha más intenções. Ele queria aprender algumas torções novas para incrementar o seu background em lutas, porém quando viu a aula, riu para si mesmo e pensou: “Isso é palhaçada! Ta tudo combinado. Vou desmascarar esse cara”. Ele se matriculou e em uma das aulas o Sensei estava explicando kote gaeshi e ele pediu para perguntar: “Mas isso funciona porque é só um soco, mas na vida real sempre é uma sequência de golpes”. O professor respondeu algo como : “Hmmmmm…..me mostre o que você quer dizer”. O aluno pensou soco, soco e chute, porém só teve tempo para o primeiro soco e já estava indo ao chão. Não se conteve e tentou mais uma vez e caiu sem saber como caiu e sem saber onde o Sensei estava. Ele começou a rir e se perguntou “o que ele fez????”. Ele virou um dos mais empolgados alunos do dojo e grande amigo do Sensei Paulo. Detestava quando escutava que alguém tinha saído do Aikido para praticar outra arte marcial. Achava isso estúpido.

Eu seguia treinando empolgado até que o Sensei Paulo precisou parar para uma cirurgia nos ombros. Pedi autorização para continuar treinando com o Sensei Marcelo que tinha acabado de se ligar ao Larry Reynosa. Quando o Sensei Paulo voltou da recuperação da cirurgia, voltei a treinar com ele. Nessa época ele já estava ligado ao Sensei Nishida que me examinou para a faixa amarela. Continuei praticando um pouco menos freqüente por conta dos horários difíceis da faculdade até que passei em um concurso da Petrobrás em  e em 2003 estava indo para o Rio de Janeiro. La, durante uns 2 meses, pratiquei com o carismático Sensei Mauro Salgueiro. Não tinha ninguém ligado ao Sensei Nishida e como estava em Copacabana, seu dojo era o mais “conveniente”. Só que descobri que dei sorte com a conveniência. Sensei Mauro é daqueles professores que tem dom. Sua aula é divertida e séria ao mesmo tempo. Meu problema é que tava mudando tudo. Minha base era de lado e agora era de frente. O peso era mais atrás e agora era mais na frente e por aí ia. Lembro até hoje do Fred que na época era um Nidan com cara de mau, que sempre me corrigia duramente e eu sou muito grato por isso. Fui transferido para Manaus e minha história no Aikido continuou por aqui. Fiz novamente o exame para faixa amarela com o Sensei Alexandre e depois de um ano mais ou menos saí do grupo O’Shinzen para iniciar uma nova proposta. Era um desafio enorme, algo como subir uma enorme montanha (Yama) e ainda estar na sua base. Comecei essa escalada junto com o Aguinaldo e com o apoio sempre 100% da minha esposa que é a pessoa mais envolvida com Aikido que não freqüenta minhas aulas, mas que, no entanto é uma peça chave para o Yama Dojo existir. Nesses anos orientados pelo Sensei Wagner, descobri muito mais que a parte física e mecânica do Aikido. O lado espiritual, filsosófico e evolutivo do ser humano se tornaram mais fortes do que nunca. Sensei Wagner colocou o espelho da verdade para que eu pudesse me olhar e comecei a ver mais claramente meus defeitos. Vi mais claramente que antes de nos prepararmos para uma luta de rua como queria na minha adolescência, precisamos nos preparar para os conflitos diários da vida. Precisamos aprender a controlar nossas emoções e nos manter tranqüilos em qualquer agressão. Hoje, como líder do Yama Dojo, tenho percebido mudanças reais em minha postura frente aos conflitos. Em um conflito, o que ganhamos ao derrotar o “inimigo” do momento? Provavelmente um inimigo por mais tempo. Há momentos que é preferível ceder para ganhar. Cair para levantar inteiro. Ao tentar controlar nosso ímpeto em nos defender do que consideramos uma agressão com outra agressão, ganhamos muito mais. Não podemos frente uma agressão deixar que nosso espírito se perturbe sempre e contribuirmos ainda mais para a desarmonia que se iniciou. Como aikidoístas, devemos restabelecer a ordem das coisas. Essa é nossa busca. Estar preparado para esse tipo luta é muito mais importante que estar preparado para uma luta física. No entanto, acredito que dentro do tatame, nosso treino precisa ser verdadeiro para alcançarmos esse ideal. Não podemos fingir que praticamos uma arte marcial, mas na verdade apenas dançamos com nosso colega de treino e fazemos quedas bonitas. Isso denigre o Aikido e não nos provoca os sentimentos que precisamos trabalhar. Nossa busca marcial e espiritual tem que andar juntas no nosso caminho (DO). Não podemos também ter a distorcida visão de que harmonia sempre é o belo e que dentro dela não há rupturas ou separações. Em uma passagem do livro de Mitsugui Saotome, Aikido e a Harmonia da Natureza, mestre Saotome exemplifica bem isso quando algumas pessoas vêem harmonia em um cordeiro dormindo tranquilamente ao lado do feliz leão. O resultado disso seria que o leão morreria de fome e sem o predador, os carneiros superpovoariam a área e destruiriam toda a relva que serve para reter o solo. A rica camada superficial deste seria lavada, o lago secaria e os cordeiros também sucumbiriam de inanição e logo teríamos um deserto árido e sem vida.

Esses anos como líder do Yama Dojo e como aluno do Sensei Wagner tem me permitido começar a sentir uma real evolução no meu espírito e também na minha técnica. Sinto claro, que preciso me esforçar ainda muito mais para que eu possa continuar com essa enorme responsabilidade que é guiar pessoas. Preciso continuar evoluindo e me tornar cada vez mais uma pessoa melhor e mais preparada para qualquer luta e formar pessoas de bem no nosso dojo. Preciso treinar mais meu corpo e espírito para que tenha condições de reverberar satisfatoriamente os ensinamentos do nosso Shihan e que nosso dojo possa ser na maior parte possível um pouco do reflexo do dojo central. É uma tarefa difícil, pois antes de ajudar a polir espíritos, preciso polir o meu. Preciso aprender a aceitar as adversidades da vida como uma oportunidade de iluminação. Aprendi também com nosso Shihan que o líder do caminho é diferente do líder de uma empresa. O líder de uma empresa busca sempre agradar os seus liderados, os elogiando para que todos escutem e os repreendendo à surdina. Isso faz com que seus liderados gostem cada vez mais de você e se esse é seu objetivo, embora um objetivo egoísta, é provável que você conseguirá. Porém, se seu objetivo é educar, muitas vezes o remédio será mais amargo e você chamará atenção do seu aluno às claras e ele se sentirá humilhado, seu ego será ferido e a popularidade do líder irá cair. Essa fórmula dos livros de liderança modernos funcionam bem nas empresas onde as relações são mais curtas e frias, porém em uma relação mais duradoura de Sensei e Aluno, que se assemelha muito a de um pai e um filho, a fórmula correta é a do remédio amargo quando preciso e do ombro amigo quando for a hora. A conexão será verdadeira e forte, pois assim como o filho amadurece e um dia agradece as broncas dos pais, o aluno também perceberá que o seu Sensei quer sempre o bem do seu grupo e do seu aluno.

Meus agradecimentos em especial ao nosso Shihan, a minha esposa Leyne, meus pais e ao Aguinaldo San. A todos os professores e colegas do Instituto Takemussu. Aos meus alunos e ex-alunos, que me ajudam acima de tudo a evoluir junto com vocês.

Domo Arigato Gozai Mashita,

Joacir Marques de Oliveira Júnior

Dojo Cho Yama Dojo – Brazil Aikikai

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