Sentimento e percepção – Tese para exame de Fukushidoin

Treino com o Shihan Wagner Bull desde 2004 quando iniciei meus treinos no Yamato Dojo com o Sensei Mauro Salgueiro, porém, a partir de 2005 que pude me aproximar mais me tornando seu aluno direto. Essa conexão com o Sensei Wagner é na minha visão, o mais importante fato na minha vida como artista marcial. Embora eu acredite que nenhum conceito marcial existente hoje é novo, a compreensão e o valor que se dá a eles é que fará a diferença em apenas saber que eles existem e incorporá-los à sua vida.

Dentre os conceitos que o Shihan nos ensina, ele chama atenção da percepção do sentimento como uma das mais importantes características para a prática do Aikido e claro qualquer arte marcial. O ser humano desenvolve habilidades incríveis e muitas vezes faz isso inconscientemente. Seria então possível captar o sentimento de uma pessoa? Acredito que sim. Quantas vezes você já sentiu uma forte vontade de olhar para um determinado ponto e constatar que havia alguém olhando diretamente para você? Se essa habilidade existe e acontece com frequência, como ela poderia ser desenvolvida? Em momentos que percebo uma abertura em minha guarda e aplico uma técnica em um aluno, eu percebo uma forte sensação negativa no ponto do meu corpo que há a abertura. Isso acontece mais com alunos novos e o sentimento é claro para mim que o aluno está pensando: “Eu acredito que posso acertar ali”. É claro que não é sempre que isso acontece e não entendo ainda quando isso é possível, ou melhor, como fazer isso ser possível. A prática do Aikido quando corretamente orientada pode nos ajudar a atingir este controle ou pelo menos compreendê-lo melhor e usá-lo corretamente.  A capacidade dessa percepção nos dá um grande poder, pois o sentimento é o primeiro elo entre as pessoas. Quando alguém intenciona socar você, o primeiro elo formado é o da intenção do “agressor”. Captar essa intenção nos dá microssegundos preciosos para poder reagir corretamente ao ataque. Um exemplo famoso desse tipo antecipação é o relato onde Ô’Sensei desviava-se de balas antes delas o alcançarem. Mais tarde o grande mestre explicou que ele era capaz de ver pontos de luz vindo em sua direção e que bastava se desviar desses pontos para que as balas não o atingissem. Tão grande era sua percepção que na ocasião em que encontrou um grande caçador, este quis testar Ô’Sensei. Ô’Sensei aceitou o desafiou, porém momentos antes declinou, pois percebeu que não seria possível evitar de ser atingido. Esse fato mostra a maturidade já desenvolvida nesse tipo de confronto. O Shihan Wagner Bull tem isso bem desenvolvido. Em um seminário com Masafumi Sakanashi Shihan,  Sensei Wagner me fez uma correção, porém eu me sentia desequilibrado ao assumir a nova postura e comentei isso com o Sensei. Fui prontamente repreendido. Sensei Wagner me falou algo como: “Você precisa aceitar o ensinamento sem questionar”. Fiquei em seiza e o Sensei Wagner continuou me instruindo: “Isso é que atrapalha o seu desenvolvimento.” Nesse momento, surgiu em meu espírito um pequeno questionamento sobre o que o Sensei acabara de dizer e no mesmo instante o Sensei Wagner olhou pra mim apontando para minha cabeça e disse: “Isso!!! Esse sentimento você tem que evitar”. Fiquei surpreendido com a capacidade do Shihan. Triste comigo  por ter ainda tantos defeitos mas feliz em saber o quão honrado eu sou por ter um mestre como o Sensei Wagner. Mas claro, mestre é mestre. Logo depois, não sei o que motivou Sakanashi Sensei, mas ele falou basicamente a mesma coisa que o Shihan Wagner tinha falado apenas para mim. Sensei Sakanashi estava do outro lado do dojo e parecia reforçar o que o Sensei Wagner acabara de falar. Senti que o Sensei olhava pra mim e ao me virar timidamente com os olhos, Sensei Wagner estava rindo e me olhando: “Viu o que acabei de falar?”.  Esse elo nos mostra o poder da percepção. Muito mais importante do que aprender golpes, desenvolver a percepção nos torna capaz de evitar uma rua onde há um bandido, evitar um mau negócio ou assumir uma postura correta antes mesmo do ataque ser desferido. Por etapas, o primeiro estágio é desenvolvermos o sen que significa antecipar um ataque, o próximo estágio seria sen no sen onde você antecipa mentalmente e em estágio mais avançado chegaríamos a go no sen onde a antecipação é espontânea e a técnica é criada no momento apenas nos movimentando. Assim, desenvolver a percepção é um ponto chave para um dia, quem sabe, sermos mestres.

Meu muito obrigado a toda família de Aikido, alunos, professores e amigos que praticam essa arte maravilhosa e que nos faz crescer juntos como seres humanos através da liderança do nosso Shihan Wagner Bull. Obrigado a minha família, em especial a minha esposa por ser tão maravilhosa e partilhar essa vida comigo.

 

Domo Arigato Gozaimashita.

Avatar de yamadojoBrazil Aikikai

Nos dias 31 de Março e 01 de Abril de 2012, o Yama Dojo – Brazil Aikikai realizou seu primeiro encontro técnico do ano de 2012 com o Sensei Alexandre Bull. Apesar de já termos tido várias oportunidades de treinar com o Sensei Alexandre, sempre ficamos impressionados. Os mais novos então ficaram de queixo caído segundo os seus próprios comentários. Foram 03 aulas de ensopar o dogi com um treino de Musubi que nos deixa muito feliezes em ver isso de fato acontendo além da teoria. Em todas as aulas Sensei Alexandre enfocou de maneira brilhante a conexão do centro. A maneira que o Sensei Alexandre mostrou como se defender de um Ikyo verdadeiramente forte sem perder a linha central e no contato já conectando com o centro do Uke me confirmou mais uma vez que Ikyo é para toda a vida. O evento contou com a participação de 26…

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Fotos e resultados do aulão do dia 17 de Março de 2012

No último sábado, dia 17 de março de 2012, tivemos um aulão de 3h com aulas dos instrutores do Yama Dojo Sempai Aldenor, Sempai Renato e Sensei Joacir. Além da aula, tivemos exames simulados de exame para kyu para faixas amarela, roxa, verde e faixa marrom. Tanto as aulas como os exames apresentaram ótimo nível técnico nos deixando mais preparados para nosso encontro do final do mês com o Sensei Alexandre.  Foram indicados para exame:

Faixa Amarela:

José Esteves, Ednaldo, Marcel, Rodrigo Vaz, Alfredo e Batista.

Faixa Roxa:

Fábio, Vinícius, Daniel e Cláudio.

Faixa Verde:

Fernanda

Faixa Marrom:

Aldenor e Rodrigo

 

Parabéns a todos!

MISOGI e churrasco

MISOGI é um termo japonês relacionado a prática de purificação. A principal imagem relacionada a essa prática é de alguém tomando banho em uma cachoeira fria pela manhã enquanto medita. Há no entanto outras formas para se praticar MISOGI realizando qualquer atividade construtiva ou de limpeza de forma exaustiva como a limpeza do dojo, da casa ou trabalhando a terra.

Neste domingo de manhã chuvosa tivemos a oportunidade de praticar um pouco de MISOGI cuidando da terra, limpando e plantando na futura sede central do Yama Dojo. Apesar de todos voltarem bastante cansados, é difícil dizer se de fato praticamos MISOGI de tão prazerosos que são estes encontros onde podemos além de comer um bom churrasco com farofa, conversar alegremente entre uma pazada e outra.

Meu muito obrigado!

Resolução de Conflitos: O Aikido na Prática – Por Terry Dobson

O trem atravessava sacolejando os subúrbios de Tóquio numa tarde de primavera. Nosso vagão estava comparativamente vazio: apenas algumas donas de casa com seus filhos e uns velhos indo fazer compras. Eu olhava distraído pela janela a monotonia das casas sempre iguais e das sebes cobertas de poeira.

Chegando a uma estação, as portas se abriram e, de repente, a quietude da tarde foi rompida por um homem que entrou cambaleando no nosso vagão, gritando com violência imprecações incompreensíveis. Era um homem forte, encorpado, com roupas de operário. Estava bêbado e imundo. Aos berros, esbofeteou uma mulher que carregava um bebezinho. A força do tapa fez com que ela fosse cair no colo de um casal idoso. Só por um milagre nada aconteceu ao bebê.

Aterrorizado, o casal deu um pulo e fugiu correndo para a outra extremidade do vagão. O operário tentou ainda dar um pontapé na velha, mas errou a mira e ela conseguiu escapar. Isso o deixou em tal estado de fúria que agarrou a haste de metal no meio do vagão e tentou arrancá-la do balaústre. Pude ver que uma das suas mãos estava ferida e sangrava. O trem seguiu em frente, com os passageiros paralisados de medo. Eu me levantei.

Na época, cerca de vinte anos atrás, eu era jovem e estava em excelente forma física. Vinha treinando oito horas de Aikidô quase todos os dias há quase três anos. Gostava de lutar corpo a corpo e me considerava bom de briga. O problema é que minhas habilidades marciais nunca haviam sido testadas em um combate de verdade. Nós, alunos de Aikido somos proibidos de lutar.

“Aikido”, – meu mestre não cansava de repetir, “é a arte da reconciliação. Aquele cuja mente deseja brigar perdeu o elo com o Universo. Se tentarem dominar as pessoas, estarão derrotados de antemão. Nós estudamos como resolver conflitos, não como iniciá-los.”

Eu ouvia essas palavras e me esforçava. Chegava a atravessar a rua para evitar os arruaceiros, os pungas dos videogames que costumam vadiar perto das estações de trem. Ficava exaltado com minha própria tolerância e me considerava um valentão reverente, piedoso mesmo. No fundo do coração, porém, desejava uma oportunidade absolutamente legítima em que pudesse salvar os inocentes destruindo os culpados.

– Chegou o dia! – pensei comigo mesmo enquanto me levantava. Há pessoas correndo perigo e se eu não fizer alguma coisa é bem possível que elas acabem se ferindo.

Quando me viu levantando, o bêbado percebeu a chance de canalizar a sua ira.

– Ah! – rugiu ele. ­ Um estrangeiro! Você está precisando de uma lição em boas maneiras japonesas!

Eu estava de pé, segurando de leve nas alças presas ao teto do vagão, e lancei-lhe um olhar de nojo e desprezo. Pretendia acabar com a sua raça, mas precisava esperar que ele me agredisse primeiro. Queria que ficasse com raiva, por isso curvei os lábios e mandei-lhe um beijo insolente.

– Agora chega! ­ gritou ele. ­ Você vai levar uma lição. ­ E se preparou para me atacar.

Mas uma fração de segundo antes que ele pudesse se mexer, alguém deu um berro:

– Ei!

Foi um grito estridente, mas lembro-me que tinha um estranho timbre, jubiloso e cadenciado, como quando estamos procurando alguma coisa junto com um amigo e ele subitamente a encontra: “Ei!”

Virei para a esquerda, o bêbado para a direita. Nós dois olhamos para um velhinho japonês que estava sentado em um dos bancos. Esse minúsculo senhor devia ter bem mais de setenta anos, e vestia um quimono impecável. Não me deu a menor atenção, mas sorriu com alegria para o operário, como se tivesse um importantíssimo e delicioso segredo para lhe contar.

– Venha aqui ­ disse o velhinho num tom coloquial e amistoso. ­ Vem aqui conversar comigo ­ insistiu, chamando-o com um aceno de mão.

O homenzarrão obedeceu, mas postou os pés beligerantemente diante dele e gritou por cima do barulho das rodas nos trilhos:

– Por que diabos vou conversar com você?

Ele agora estava de costas para mim. Se o seu cotovelo se movesse um milímetro que fosse eu o esmagaria. Mas o velhinho continuou sorrindo para o operário.

– O que você andou bebendo? ­ perguntou com os olhos brilhando de interesse.

– Saquê ­ rosnou de volta o operário ­ e não é da sua conta! ­ completou, lançando perdigotos no rosto do velho.

– Que ótimo ­ retrucou o velho. ­ Excelente mesmo. Eu também adoro saquê! Todas as noites, eu e minha esposa aquecemos uma garrafinha de saquê e vamos até o jardim nos sentar num velho banco de madeira. Ficamos olhando o pôr-do-sol e vendo como vai indo o nosso caquizeiro. Foi meu bisavô quem plantou essa árvore, e estávamos preocupados achando que ela não fosse se recuperar das tempestades de gelo do último inverno. Mas a nossa arvorezinha saiu-se melhor do que esperávamos, ainda mais se considerarmos a má qualidade do solo. É gratificante olhar para ela quando levamos uma garrafinha de saquê para apreciar o final da tarde, mesmo quando chove!

E olhava para o operário, seus olhos reluzentes. O rosto do operário, que se esforçava para acompanhar a conversa do velhinho, foi se abrandando e seus punhos pouco a pouco relaxando.

– É, é bom. Eu também gosto de caqui… ­ mas sua voz acabou num sumiço.

– São deliciosos ­ concordou o velho sorrindo. ­ E tenho certeza de que você também tem uma ótima esposa.

– Não ­ retrucou o operário. ­ Minha esposa morreu.

Suavemente, acompanhando o balanço do trem, aquele homenzarrão começou a chorar.

– Eu não tenho esposa, eu não tenho casa, eu não tenho emprego. Eu só tenho vergonha de mim mesmo.

Lágrimas escorriam pelo seu rosto; um frêmito de desespero percorreu-lhe o corpo.

Chegara a minha vez. Lá estava eu, com toda a minha imaculada inocência juvenil, com toda a minha vontade de tornar o mundo um lugar melhor para se viver, sentindo-me de repente mais sujo do que ele.

O trem chegou à minha estação. Enquanto as portas se abriam, ouvi o velho dizer solidariamente:

– Minha nossa, que desgraça. Sente-se aqui comigo e me diga o que houve.

Voltei-me para dar uma última olhada. O operário escarrapachara-se no banco, a cabeça no colo do velhinho, que afagava com ternura seus cabelos emaranhados e sebosos.

Enquanto o trem se afastava, sentei-me num banco da estação. O que eu pretendera resolver pela força fora alcançado com algumas palavras meigas. Eu acabara de presenciar o Aikido num combate de verdade, e a sua essência era o Amor. A partir de agora teria que praticar a arte com um espírito totalmente diferente. Muito tempo passaria antes que eu voltasse a falar sobre a resolução de conflitos.

Fotos de CURSO BASICO DE TECNICAS DE CONTROL Y APREHENSION DICTADO A LA GNB FEB2012

Sensei Requena já vistou nosso Dojo para ministrar um curso semelhante, porém em apenas 03 dias, sendo que um deles foi Seminário apenas para Aikidoístas. O curso valeu como o Módulo I do Takepol.

Para mais informações sobre o mestre Nelson Requena, por favor visite a página:

http://aikikai.org.ve/site/sensei